Índio: gente daqui

Eugenio Gervasio Wenzel

Índio e psicologia. Quem é denominado como “índio” por nós, se autodenomina, cada um na sua língua, como “gente”. Awáeté, por exemplo, significa: homem verdadeiro. O conhecimento sobre a Psicologia faz parte do saber elaborado no ocidente, mais precisamente, iniciada pelos filósofos gregos. Psicologia é possível na interação entre duas ou mais pessoas; a psique se forma na relação com o outro; a maturidade psíquica, sob um aspecto, diz respeito à capacidade de relacionar-se adequadamente com pessoas distintas. No nosso contexto, somos formados por gentes de origens distintas, num encontro ou desencontro universal.

Quando o europeu chegou nessa terra, hoje conhecida como Brasil, como aventura, como exploração, como guerra, ele se deparou com gente que habitava essas terras. Sabe-se que todo estranho é facilmente discriminado, rejeitado e até eliminado. Uma bula papal foi necessária para reconhecer o índio como ser humano. Entretanto, até hoje há os que não conseguem admitir isso.

Certa vez, em uma conversa com Ailton Krenak, ele ponderando calmamente afirmou que 99% das pessoas são “contra” o índio por não conhecê-lo. Essa afirmativa foi algo que pude confirmar ao longo da minha vida profissional como antropólogo. Deixo nesse artigo algumas experiências que me ajudaram a conhecer facetas, características, que não significa que sejam comuns a todos eles. Hoje contamos com mais de duzentas tribos indígenas no Brasil, sendo que cada uma tem sua língua, seu jeito de perceber a realidade, de pensar, de trabalhar, de rezar, ou seja, cada qual com a sua cultura.

Lembro-me de uma noite, na aldeia Mayrob, localizada no Norte do Mato Grosso, à beira do Rio dos Peixes (Tatuí), estava conversando com os Apiaká, quando um mais idoso chamou atenção para uma formação astronômica. Como era uma noite de “lua escura” e a luminosidade local, mais intensa, era alguma brasa em extinção em algum fogo de cozinha, era possível ter uma visão nítida das estrelas e suas formações no céu sem lua. Eu estava habituado a ver galáxias, o cruzeiro e alguma outra estrutura que conseguia decifrar, como as “Três Marias”. Mas, esse senhor apontou para uma mancha negra na galáxia, pouco abaixo do Cruzeiro do Sul. Demorei a identificar o “chupé” que eles conseguiam vir, mas aos poucos fui me habituando ao perceber o chupé, de modo a adquirir essa forma de vir o céu. Depois, ele apontou para outra mancha (ausência de estrelas) em que eles viam uma onça pulando sobre um veado. Levei um pouco mais de tempo para conseguir vir essa formação, resultante de uma mancha. Hoje, preciso procurar um lugar onde não haja interferência de iluminação pública em noite de lua escura para conseguir vir o chupé e a onça pulando sobre o veado!

Falei da lua escura. Para eles têm duas luas: lua escura e lua clara. Como distinguir? O período - que vai da lua nova até a lua cheia - é considerado como lua clara, pois ao anoitecer conta-se com a claridade crescente da lua. O período complementar corresponde à lua escura, pois anoitece e logo escurece. A lua aparece sempre mais tarde, ampliando o período de escuridão.

A lua tem importância para cortar palha (folha de palmeira) ou madeira para construção. Pois se cortado na lua escura, o material se conserva mais tempo e, o contrário, acontece se for na lua clara. Assim, tive a experiência com eles, de dar atenção a aspectos da realidade que, antes, nada significavam para mim.

Quando algum Kaingang me falava que “fulano falou alto comigo”, soube que essa forma, em que se usa um volume elevado de som para falar, para o Kaingang, representava uma ofensa, como um tapa na cara. Observei entre os Munduruku, Kayabi e Apiaká, para citar alguns, que eles se comunicavam, geralmente em voz sussurrada. Era tão discreta essa fala que, por vezes, não percebia, mesmo estando ao lado.

Selecionei alguns aspectos do jeito de ser gente dos índios, na sua percepção da realidade, na sua comunicação. Acredito ter podido aprender alguma maneira distinta de ser gente com eles.

*Eugenio Gervasio Wenzel é antropólogo e professor do curso de Psicologia do Centro Universitário Anhanguera de Leme

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